Ortorexia

PUBLISHED ON APR 12, 12047

O termo ortorexia tem sua origem etimológica na união de duas palavras gregas, “orthós” (correto, verdadeiro) e “oréxis” (apetite).

Ortorexia é uma “doença nova”, que pode ser nomeada também como Síndrome do apetite correto. Numa sociedade em que a obesidade é um problema de saúde pública, concluímos que a mania de ser saudável também pode trazer riscos e vir a transformar-se num transtorno alimentar.

Ainda não consta do livro médico de diagnósticos, mas pode ser visto como o sintoma maior das patologias da atualidade, e, certamente pode ser considerado um transtorno alimentar. Há algo de paranóico presente, junto com uma noção estranha de pureza e perfeição. É comum entre os ortoréxicos demonstrarem também muita convicção na eficácia dos exercícios físicos, como se tivessem necessidade de sentirem-se “no gozo de perfeita saúde”…, em consonância com uma busca exagerada de perfeição.

Entretanto a ortorexia enquanto uma obsessão em manter-se numa dieta saudável pode causar o efeito contrário, uma alimentação desequilibrada.

Os ortoréxicos tem uma preocupação excessiva com a alimentação, que precisa necessariamente ser ultra-saudável. A ortorexia surgiu como uma distorção da idéia de que a comida natural é a melhor forma de alimentação. Com certeza, esse tipo de alimentação melhora a saúde, mas o problema é que os ortoréxicos estariam levando a receita a sério demais. Embora já estejam comprovados os benefícios do alimento mais natural, os ortoréxicos acabam prejudicando a si próprios por levarem a rigidez alimentar ao extremo. Como tudo na vida, o problema reside no excesso.

Por causa de tantas restrições alimentares, essas pessoas acabam convivendo apenas com aqueles que dividem o mesmo cardápio. A preocupação com a comida, então, atinge níveis paranóicos. O maior prejuízo causado pela ortorexia reside nos danos sociais, como é o caso da exclusão social auto-imposta. Ao evitar encontros por causa da alimentação, o paciente pode estar sofrendo de ortorexia, transmitindo uma mensagem, nem sempre de forma subliminar, de que os outros são impuros. Para tirar o paciente do radicalismo, o médico deve negociar a entrada gradual de novos alimentos no cardápio.

O procedimento deste paciente traduz-se no exagero em evitar alimentos gordurosos, em não comer muito açúcar, em conhecer a procedência do que ingere, em ficar atento aos prazos de validade, buscando seguir a risca as orientações médicas. É comum haver também uma preocupação exagerada com a higiene, com as formas de produção, de venda, de industrialização e todos os conceitos que envolvem o desenvolvimento do alimento final.

A preocupação exagerada com a seleção e o preparo dos alimentos pode ser um dos principais sintomas desse transtorno obsessivo-compulsivo. Na ortorexia, a grande preocupação é a qualidade dos alimentos. Deste modo, um ortoréxico ocupa muito do seu tempo com a preparação do alimento, limitando seu prazer à fase preparação. Quando a doença já está instalada há muito tempo pode haver sérios riscos ao paciente.

Embora ainda não seja reconhecida como uma doença pela Organização Mundial de Saúde, a ortorexia tem atraído a atenção de muitos estudiosos, promovendo debates e trocas entre os especialistas em transtornos alimentares. Afirmo ser necessário uma equipe multidisciplinar para fazer frente a mais este desafio. A ortorexia parece ser um problema psicológico que se desenvolve com a preocupação descontrolada em manter uma dieta 100% saudável. A obsessão em consumir apenas alimentos orgânicos e o vício pelo produto natural estão na origem deste transtorno alimentar.

Acreditamos que a ortorexia possa ser um desdobramento da anorexia. Um fato curioso é que os curados de anorexia, com alguma freqüência adotam a ortorexia. O indivíduo usa o subterfúgio de comer apenas alimentos saudáveis para evitar consumir alimentos em quantidades normais. Entretanto, há diferenças importantes entre a anorexia e a ortorexia: enquanto na primeira o problema está na quantidade de comida ingerida, na segunda a questão é a preocupação com tipo de alimento escolhido.

Sem querer alarmar as pessoas que têm cuidados especiais com a alimentação, precisamos lembrar que a ortorexia é apenas uma situação extrema, em que a pessoa, insistindo em cumprir um regime alimentar muito rígido, começa a prejudicar a sua qualidade de vida e sobretudo seus relacionamentos sociais. No entanto, a procura de uma vida saudável, sem exageros é absolutamente recomendável.

Não existem formas de prevenir este tipo de transtorno, embora nossa observação possa revelar sinais indicativos de que uma pessoa corre esse risco. A melhor forma ainda é procurar identificar o mais cedo possível. Por outro lado, a cura definitiva também não é tarefa fácil e exige a intervenção de uma equipa multidisciplinar, composta por nutricionista, psicólogo e endocrinologista.