"Operar a Cabeça"

PUBLISHED ON APR 12, 12047

A psicanálise nos diz que a aparência está na base do processo de reconhecimento do sujeito, ajudando na constituição do sentimento de si mesmo; e nos permitindo afirmar que a auto-imagem é um fator determinante de reconhecimento do indivíduo. O precursor do espelho é o rosto da mãe, e a insatisfação com a própria imagem advém de profundas carências afetivas norteadas pela sensação de desamparo, que pode levar o indivíduo à condição de extrema dependência de parâmetros externos. Transformações corporais ocasionadas por cirurgias (sejam plásticas, gastroplastias, amputações ou similares) consideradas como operações feitas “de fora para dentro”, precisam ser acompanhadas por equipes de profissionais que ajudem a dar legitimidade às transformações que precisam ocorrer do ponto de vista psíquico para permitir que estas possam atingir o nível “de dentro para fora”.

Exemplo significativo é a preparação psicológica para cirurgia bariátrica e o acompanhamento no pós-operatório. Numa linguagem leiga, diríamos que o cirurgião seria aquele que opera a barriga deixando a transformação da cabeça para o psicólogo ou o psicanalista. A reconstrução corporal pode representar uma metáfora para a urgência da reconstituição do sujeito, e, ao contrário do que muitos imaginam, esse processo de adaptação às mudanças corporais é fundamental na reorganização das suas prioridades.

“Operar a barriga e não operar a cabeça” pode ser muito frustrante para o paciente bariátrico, pois pode se traduzir no fracasso de seus objetivos. Não emagrece ou não elimina todo excesso de peso que necessita e se desilude com sua nova condição corporal.

A obesidade é estigmatizadora e discriminadora, por isso mesmo nos permitindo afirmar seu caráter gerador de preconceito, tanto entre os próprios obesos quanto no social, que não o aceita. E sendo “o preconceito uma doença da alma” como afirma Lya Luft, ninguém melhor do que o psicólogo para tratar da obesidade, já que o próprio Freud diz que “o psicólogo é o médico da alma”.