Normalidade

PUBLISHED ON APR 16, 16047

Quando tratamos da obesidade nos defrontamos com a questão do peso ideal, donde surgem questões ligadas ao que seja ideal, normal, ou ainda, peso normal. Entende-se que obesidade seja a situação em que o indivíduo apresenta uma quantidade de gordura maior do que a quantidade considerada normal. Taí, o que será a quantidade normal de gordura?

Está aí a polarização entre normal e patológico. É normal ser gordo? É normal ser magro? Parecem questões estapafúrdias, mas são absolutamente pertinentes se lembrarmos, por exemplo, que obesidade já foi sinônimo de padrão de beleza. E padrão nos remete à norma, que por sua vez é o que vai estabelecer a regra ou aquilo que é normal.

Os padrões mudam e os critérios de escolha mudam porque a cultura está sempre em transformação. O que hoje é considerado bonito ontem era feio. Com relação a questão do peso a dinâmica é a mesma, e talvez valesse a pena lembrar que a diferença reside no quantum de gordura a sociedade valoriza. Em tempos de escassez, as gordinhas viraram modelo, mas já na abundância alimentícia da atualidade todos querem se livrar das gorduras. A gente sabe que aquilo que abunda não é valorizado…

Contextualizar os conceitos amplia nosso olhar sobre as diferenças e permite uma maior compreensão do presente. O dicionário do Houaiss nos diz que normalidade é a qualidade ou estado do que é normal, trazendo também a idéia de natural. Aí a coisa complica porque a gente sabe que é preciso tomar cuidado com esse conceito, pois de modo geral há uma tendência a considerar natural o que é inato ou o que vem da natureza. Fora de contexto não temos condições de determinar se alguma coisa é bonita, útil, importante, saudável ou atribuir qualquer outra qualificação, pois tudo depende do momento histórico a qual nos referimos. Esses conceitos não pairam acima de nós como verdades absolutas, eles só espelham a cultura na qual estão inseridos.

A normalidade é definida em função da época em que se vive. Nossos avanços tecnológicos contribuem para definição do que é normal e o que é patológico, mas o filósofo George Canguilhem nos diz que os fenômenos patológicos são idênticos aos fenômenos normais correspondentes só variando em intensidade, ou melhor, que o estado patológico seria somente uma modificação quantitativa do estado normal. Então, nossa conclusão é que a noção de peso ideal só serve para criar idealizações que levam a frustrações e desilusões e não melhoram as condições físicas de nossos pacientes. O importante é a gente determinar que devemos ter como meta um peso razoável, abandonando a idéia do que seria peso ideal.