"Engordamento"

PUBLISHED ON APR 16, 16047

Todos sabemos que não existe uma forma correta para nos referirmos ao processo oposto ao do emagrecimento. É sintomático que semanticamente também tenhamos dificuldade para encontrar uma maneira adequada de nos referirmos ao processo responsável pela nossa obesidade. É por isso que meus clientes sabem que eu chamo essa fase tão difícil de processo de “engordamento”.

A exclusão a que ficam submetidos os obesos começa pela impossibilidade de nomear devidamente o processo que vai os excluir. Ser gordo ou ser magro depende do quanto se come, do quanto se gasta de caloria e não se pode esquecer, do quanto se produz de gordura (lipogênese aumentada) e da queima de gordura (oxidação de gordura). Por enquanto só podemos controlar a ingesta e o gasto calórico, pois a lipogênese e a oxidação das gorduras dependem, sobretudo, da genética, não permitindo maiores interferências para ajudar aqueles que querem e precisam emagrecer.

Lembrando que a obesidade é uma doença crônica, de fundo orgânico e não de caráter psicológico, faz-se necessário retirar de cima dos obesos mais esse peso desnecessário que eles carregam: da culpa por comerem mais do que quem não é gordo ou não tem tendência para engordar.

A obesidade é muito mais complexa do que se pensava até pouco tempo atrás. Hoje sabemos que existe uma questão orgânica importante, que são as chamadas “forças engordativas”, ou seja, a queima calórica maior ou menor, a produção maior ou menor de gordura, a saciedade e a fome. São essas forças que, de acordo com as diferenças genéticas, vão determinar se uma pessoa passará por um processo de engordamento. De acordo com pesquisas feitas nos Estados Unidos com os índios Pima, com gêmeos univetelinos e com leptina, ficamos sabendo que a genética é determinante. Ela é responsável até pelo que gostamos ou deixamos de gostar. De acordo com o endocrinologista Alfredo Halpern, não escolhemos os alimentos de que vamos gostar porque na sua visão a genética já teria feito essa escolha por nós ao nascermos. A genética determina até o grau de fome que vamos sentir ao longo da vida. O patrimônio genético de cada pessoa dita as características individuais em relação ao peso corporal, como por exemplo o nível de queima calórica, o grau de fabricação de gorduras, o nível de oxidação das gorduras ou o aproveitamento dos alimentos. Dr. Alfredo Halpern conclui afirmando que essa diferença genética prova que “o gordo é uma vítima do destino” por carregar, além do sobrepeso, a carga da falta de solidariedade da sociedade em que vive.

Esse engordamento está presente também na tendência natural a engordar quando se é obeso e se emagrece. É isso que está por trás do efeito sanfona. Não se trata de falta de vergonha na cara e nem de falta de força de vontade. Por isso que é tão difícil emagrecer quanto manter-se magro. As “forças engordativas” entendem que precisam fazer com que a pessoa volte a recuperar seu maior peso. Essa tendência tem sua origem na preservação da espécie, quando a gordura era fundamental para nos proteger das intempéries e nos proporcionar condições físicas para caça e para sobrevivência em épocas de escassez.

Mesmo não havendo mais necessidade de tanta proteção, não podemos esquecer que as forças engordativas ainda estão atreladas a padrões filogenéticos. Existindo, assim, uma tendência natural a engordar quando se é obeso e emagrece, que é o que está por trás do famoso efeito sanfona.

Por mais que se fale aqui em causas genéticas para obesidade, nem tão cedo, talvez daqui a três ou quatro gerações, não antes disso, o obeso deixará de ser considerado um sem educação ou uma pessoa que não sabe se controlar porque é guloso ou porque sua voracidade o impede de melhor fazer suas escolhas. O obeso continua sendo alvo de discriminações, mesmo com toda essa gama de informações. A gente sabe que o preconceito é fruto da ignorância…, mas a única arma para combatê-lo é a informação. Vamos torcer para que as informações acerca das descobertas médicas sobre a obesidade galopem e atinjam um número cada vez maior de pessoas. No mundo globalizado, onde não há fronteiras para, por exemplo, a “macdonaldização” do oriente, precisamos acreditar que as inovações médicas ajudem a acabar com o preconceito contra os obesos.