Corpo e Cultura

PUBLISHED ON APR 16, 16047

Não existe corpo que seja impermeável à cultura, por isso o corpo é sempre muito fiel a sua época. É por isso que o corpo da nossa época é um corpo para aparência e não para ser vivido. Novas psicopatologias, como os transtornos alimentares, são um sintoma culturalmente determinado. O filósofo Christofer Lash propõe categorias psicanalíticas para entender o inconsciente da atualidade, afirmando que na cultura do narcisismo a formação da subjetividade se dá ao mesmo tempo em que verificamos um declínio do espírito lúdico em função de uma busca por novas experiências radicais. Com certeza valeria a pena nos perguntarmos: Que tipo de narcisismo encontramos hoje? Que tipo de narcisismo é esse que se odeia? Porque será que olhamos no espelho e nos odiamos? Nossa era vive uma completa insatisfação com o próprio corpo numa busca constante de regeneração, onde o corpo teria que permanecer jovem, ágil, leve e sem rugas.

Vivemos em regime de “prontidão afetiva”, onde a cultura das sensações substituiu a cultura dos sentimentos, como afirma o psicanalista Jurandir Freire Costa. A importância da imagem é excessivamente valorizada. E assim, através da ilusão de ser magro, imaginamos poder “melhorar o presente”, uma vez que os estilistas impõem a ditadura da magreza, adotando um padrão de beleza inatingível. Na cultura das sensações as regras e os modelos de identificação estão no corpo. Então o que importa é a capacidade de extrair sensações do corpo, de forma imediata. Já que ficamos impossibilitados de fazer projetos a longo prazo também fica difícil a gente investir numa relação amorosa. As garantias para a realização de nossos projetos eram a família, o trabalho, a religião e a política, mas esses valores não ocupam mais o lugar valorizado que tinham no passado.

Os vínculos são mais instáveis e mais precários na cultura das sensações, abrindo espaço para a instalação dos Distúrbios da Imagem Corporal, chamadas também de Doenças da Beleza. Elas revelam uma pobreza afetiva, uma falta de terreno fértil para a afetividade. A promessa de felicidade pelas sensações é falsa. A cultura das sensações remete ao culto do corpo que é imediatista e não combina com vínculo afetivo. Para encarar essa cultura, a única solução é fortalecer o vínculo mais seguro, aquele dos pais e filhos, estimulando os vínculos educacionais, seja entre pais e filhos, seja entre professores e alunos. Não é sem motivo que a historiadora Mary Del Priore, especialista em História da Cultura, sugere um olhar mais atento para gênese da nossa historia: “A longa história de nossos corpos ensina que, quanto mais olharmos para trás, buscando conhecer o passado de nossos avós obesos, melhor entenderemos e construiremos nossa identidade, no presente”.